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Artigo de Opinião

UM ANALISTA NÃO É FORMADO, UM ANALISTA É PRODUZIDO

Adeane Fleury[1]

Resumo

Reinventar a psicanálise, uma saída diante do impossível de sua transmissão. A posição do analista é insustentável. A análise incita a viver sem história no singular, portanto não faz heróis (Allouch). “Eu nunca falei de formação analítica. Eu falei de formações do inconsciente.” (Lacan) significa que um psicanalista se produz em uma análise pessoal. Não há modelo prévio de uma formação analítica. Os analistas são convidados a reinventar a psicanálise a partir das formações do inconsciente.

Palavras-chave: Formação do Analista. Passe. Ludo de si. Formações do inconsciente.

“O analista é produzido, não é formado!” (José Attal).

Psicanálise é um tratamento? Começo por essa questão com a qual Jean Allouch (2001) intitula um artigo, onde nos diz que a psicanálise não se posiciona como tratamento no sentido de um cuidado ou de uma cura, cujo objetivo seria a “saúde mental”. Existe, portanto uma diferença entre uma cura obtida e uma cura objetivada em uma prática específica, lembrando Lacan quando dizia que, em psicanálise a cura se produz “por acréscimo”. Acontece do desaparecimento de um sintoma, do qual jamais se falou em análise, ser notado apenas tempos depois. Allouch propõe que existe um efeito mútuo, nesses elementos envolvidos, que analista e analisando se modificam em uma análise, que nenhum dos dois está imune.

Sobre a transmissão da Psicanálise, Freud e Lacan, ao se depararem com seu impossível, nos deixam como saída possível: reinventar a Psicanálise. Isso quer dizer que não se pode estar preso a uma técnica, que fosse garantia de um resultado específico, muito menos uma normatização de uma pessoa. Diz-se que uma análise se assemelha a um caminho aberto em uma mata virgem, não podemos antecipar de início onde vai dar. Para Attal (2012) reinventar a psicanálise significa dar fôlego, dar vida à invenção, tornando-a contemporânea. Tarefa que, por vezes, nos esquecemos, ao passar nosso tempo ainda tentando entendê-la, a psicanálise, entendê-los, Freud e Lacan em suas concepções e articulações clínicas.

Reinventar a psicanálise poderia ser tomado como uma realidade para a qual tentamos dar um saber e uma forma, mas como diz José Attal (2012a, p.151) citando Heisenberg: “A realidade estando em constante flutuação, tudo que podemos fazer é operar recortes graças ao nosso pensamento, extraindo dele processos, fenômenos, leis.” Neste contexto, não há completude, nem o que seria um “retrato exato da realidade”.

Portanto, o impossível da transmissão nos convoca ao trabalho, visto que nada está concluído a esse respeito. No sentido formulado por Allouch (2014, p.2) sobre a prática psicanalítica, a qual: “nunca é estável, ou fixada, mas aberta a ser reinventada a cada novo caso, com tudo que ele tem de instável e de desestabilizador.”

Para Lacan, os termos doente, médico, medicina não são utilizados, já que aquele que faz o trabalho na análise é aquele que fala, o sujeito analisante, enquanto,

o analista intervém dando interpretações, que tentam apagar o sentido das coisas pelas quais o sujeito sofre. O objetivo é mostrar a ele, através de seu próprio relato, que seu sintoma, digamos sua doença, não tem relação com nada, que ele não tem nenhum sentido. Mesmo que ele pareça real, ele não existe. As vias pelas quais essa ação da palavra procede pede uma grande prática e uma paciência infinita. (Lacan, 1974, p.10)

Trabalho difícil, como Lacan corrobora: “É algo muito difícil, a psicanálise. Antes de mais nada, é muito difícil ser psicanalista, porque temos que nos colocar numa posição absolutamente insustentável. Freud já havia dito. A posição do psicanalista é insustentável.” (Lacan, 1974, p.8).

“A análise, não sei se vocês sabem, a análise ocupa-se muito especialmente do que não funciona” (Lacan, 1974), do que não vai bem, ocupa-se do real. Do que há de imundo no mundo, é disso que se ocupam os analistas. “O real sendo o que não anda, e estando [os analistas] obrigados a suportá-lo… é necessário que estejam terrivelmente armados contra a angústia.” (Lacan, 1974, p.12).

Embora isso se deva também ao próprio objeto da psicanálise, chamado de “loucura”:

A Psiquiatria e a psicanálise são, em relação à medicina, um pouco como filhas bastardas, nunca verdadeiramente integradas na família. […] Se nunca se conseguiu elevar a psiquiatria e a psicanálise ao nível que alcançou a medicina científica, isso deve-se ao próprio objeto dessas duas disciplinas, a esse objeto que chamo de “loucura” […]. E há mais: devemos à própria loucura, por resistir a qualquer controle, esse caráter flutuante, inabitual, mal fagocitado. (Allouch, 2016).

O que nos leva a prestar uma homenagem ao psiquiatra e ao psicanalista que persistem em seus trabalhos, pautados nesse objeto que escapa _ a loucura _ , prescindindo das garantias.

A análise, nos lembra Allouch (2012), não faz do analisante um herói, ao contrário o incita a viver sem história no singular. E ainda, que o analista é alguém que se apóia na discrição. Allouch responde com um não à pergunta se saíra de sua análise com uma história. Não que a história não seja interessante. Somente que as versões locais da sua história, o percurso de sua análise terminou por reduzi-las a “inúteis balões de ar”[2]. Para ele, isso não é somente pensável, como possível, pois considera que a clínica seja o luto, e que a “clínica analítica deve ater-se ao diverso, abandonar o universal, e mais nada.” (Allouch, 2012, p.35).

Lacan investiu grande interesse e empenho na transmissão da Psicanálise. Tinha uma inquietude, uma busca incessante de uma forma que servisse à transmissão da Psicanálise, seja através da matemática, da lógica ou da topologia. Lacan disse durante uma entrevista:

Se me esforço por algo, é para dizer coisas que se ajustam a minha experiência de analista, isto é, algo limitado [sublinho], dado que nenhuma experiência do analista pode pretender apoiar-se sobre várias pessoas no intuito de generalizar. Eu tento determinar com o que um analista pode sustentar-se a si mesmo […] Porque quando se é analista, constantemente sentimos a sensação de patinar, de deslizar escada abaixo, o que reconhecemos ser muito pouco digno da função do analista. Há que permanecer rigorosos e só intervir de maneira moderada. (Lacan, 1974a, p.12)

Quando Lacan (1973a, p.254) enuncia: “Eu nunca falei de formação analítica. Eu falei de formações do inconsciente. Não há formação analítica, mas da análise se tira uma experiência […].” O que queria ele com isso dizer?

Parece dizer que não há formação do psicanalista, pois não há um modelo, por ser algo que se produz, tanto como o inconsciente é produzido. Lacan buscava encontrar um jeito de ver avançar a psicanálise, de ver a expansão do ato analítico, não estando interessado no detalhe da vida pessoal do sujeito que se tornou analista, ou no contexto que o levou a isso. Não importa o que ele testemunha no dispositivo do passe (a passagem de analisante à analista), sobre suas mazelas pessoais, seus sucessos e fracassos. Interessa sim, como expõe Jose Attal (2012), ver o efeito que o testemunho possa produzir em todos envolvidos, o efeito que põe todos a trabalhar.

Trata-se de uma abertura que ofereça espaço ao novo, ao singular, que possa advir da experiência de cada um, e não a recorrência a um modelo predeterminado, a um formato de psicanalista que se deveria corresponder.

Nessa posição de analista não há lugar para o narcisismo. O analista é aquele que fez o luto de si, que se liberou de uma posição narcisista. Ele está assim liberado de ter orgulho de sua vida ou do material de sua análise. Trata-se de fazer o luto de um modelo, já que a produção do psicanalista é sem modelo. Um psicanalista que quer contribuir para a reinvenção da psicanálise poderá falar, com a possibilidade de causar nos seus pares uma reflexão, como diz Lacan, causar um evento, um encontro com o real.

Nos diz Attal, citando Emmanuel Housset: “a singularidade do objeto do testemunho faz com que ao testemunhar eu não revelo diretamente uma verdade a alguém, eu apenas dou a possibilidade de encontrar-se na experiência desta verdade.” (Emmanuel Housset, L´objet du témoignage, cit in Attal, 2012, p.92-93).

Dizemos em psicanálise que “o passe é a passagem do analisante ao analista”. Não perdendo de vista que ali onde esperávamos advir o saber, só será possível começar a saber. O analista, como diz Mazzuca (2011, p.8), “não é um sujeito definitivamente analisado ou curado para sempre de seu sintoma, de sua divisão e de sua angústia.” Ele toma a angústia no seu lado produtivo de saber sobre a verdade do sujeito, portanto, antes de se livrar dela, interroga-a.

“Eu nunca falei de formação analítica. Eu falei de formações do inconsciente.” (Lacan, 1973, p. 254) Não se trata de classificar, aprovar psicanalistas, mas fazer avançar a psicanálise a partir das formações do inconsciente.

 

Referências Bibliograficas

ALLOUCH J., (2001) Une psychanalyse est-elle un « traitement » ? 09/01/2001. In : jeanallouch.com

ALLOUCH J. (2005), Histoire de vivre sans histoire. Colloque ELP, Juin/2005. In: Jeanallouch.com.

ALLOUCH J. (2010), Sur le portrait silencieux de Jacques Lacan de Claude Jaeglé. Paris: Puf, 2010.

ALLOUCH J. (2012), Les prisonniers du Grand Autre. Paris: Epel, 2012.

ATTAL J. (2012), La passe à plus d´un titre. Paris: Cahiers de L´unebévue, 2012.

ATTAL J. (2012a), Le point de retournement de Lacan: creation/dissolution. L´unebevue. Paris, n. 29, jan/2012.

ALLOUCH J. (2014), Fragilités de l’analyse. Critique, “Où est passée la psychanalyse ?”, n° 800-801, jan-fév 2014. In : jeanallouch.com

ALLOUCH J. (2016), Quelle médecine pour la folie ? In : jeanallouch.com

LACAN J. (1973), Les non-dupes errent, Séminaire 1973-1974,  Éditions de L´A.L.I., Paris, ago/2010.

LACAN J. (1973a), Le congrès de La Grande Motte, 3/11/1973. In: Annexe II, Les non-dupes errent, Séminaire 1973-1974, Éditions de L´A.L.I., Paris, pp. 249-256, ago/2010.

LACAN J., (1974) ENTRETIEN DE JACQUES LACAN AVEC EMILIA GRANZOTTO pour le journal Panorama (en italien), à Rome, le 21 novembre 1974. Cet entretien a vraisemblablement eu lieu en français, a été traduit en italien, puis retraduit en français ici même. e. Buenos Aires: Letra Viva, 2011.

LACAN J., (1974a), CONFERENCE DE PRESSE 1 au Centre culturel français, Rome, le 29/10/1974 . Parue dans les Lettres de l’École freudienne, 1975, n° 16, pp. 6-26.

MAZZUCA M. (2011), Ecos del passe. Buenos Aires: Letra Viva, 2011.

 

[1] Psicanalista membro da École Lacanienne de Psychanalyse (Paris – França). Doutora em Psicopatologia e Epistemologia Clínica Comparativa, Université Paris VIII, França, 1999. Adeane@operandi.com.br.

[2]Balon de bedruche: balão inflável, também pode significar um homem sem consistência.

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